Monday, August 07, 2006

Prólogos II - o meio do início

Ângela Lehve

Ela era uma menina-moleque. Sempre fora assim. Mesmo quando era muito pequena, na companhia de seus pais, havia um senso comum de que Ângela lhes traria seus primeiros fios brancos.
Mas não haveria nenhum fio branco.
Seus pais eram ambos cientistas. Conheceram-se no laboratório, pesquisando algo sobre como fótons poderiam desaparecer em um lugar e aparecer em outro se atingidos por um determinado raio.
Apaixonaram-se e resolveram se casar quando descobriram uma gravidez um tanto imprevista.O casal foi muito feliz por alguns breves anos. A despeito do colégio semi-interno, Ângela acompanhava-os ao laboratório regularmente, e a máquina que produzia aquele raio específico sempre lhe causou fascínio.
Houve um domingo no qual o casal decidiu não ir ao laboratório. A máquina estava programada para produzir o raio no horário rotineiro, e o computador tomaria nota dos dados para a pesquisa. A família teve um perfeito dia... familiar. Mas a noite caiu, e é no cair da noite que agem as criaturas vis. O apartamento foi invadido por assaltantes, Ângela se escondeu debaixo de uma mesa, mas seus pais ficaram à mercê dos invasores, e tentaram reagir. Foram ambos mortos sem misericórdia com tiros à queima-roupa.
- Dizem que ela assistiu tudo.
- Mas ela só tem oito anos! Coitada da menina...
- Ela não fala nada?
- Não. Muda desde que encontraram, dentro da câmara de fótons.
- Você sabe o que ela estava fazendo lá?
- Não. Vai ver queria ficar sozinha. Será que o raio machucou ela?
- Não parece. Estava programado, é?
- Pras sete e trinta e cinco da noite.
- Ela sabia?
- Acho que não.
Ângela foi encaminhada para tratamento psiquiátrico, mas depois de alguns anos o laboratório pressionou o médico para que ele dissesse que ela estava apta a uma vida normal, de forma que eles não mais se responsabilizaram pelo destino da órfã. E ela cresceu com parentes distantes, ávida por sua independência o quanto antes. Era necessário que ela morasse sozinha, pois seus pesadelos, ilusões e desmaios continuavam incomodando, e freqüentemente faziam-na aparecer em lugares estranhos da casa. Seus tios até chegaram a pesquisar sonambulismo, mas algo os fez parar quando Ângela apareceu dentro de um quarto trancado, para o qual ela não tinha a chave. Os olhares eram tão penetrantes que em um mês ela conseguiu um sub-emprego e saiu de casa. No entanto, sua índole não permitia receber ordens estúpidas durante muito tempo, então ela foi migrando de sub-emprego a sub-emprego, até encontrar aquele do qual nunca seria demitida: Ângela era agora uma courier.
- Incrível. Saiu há meia hora, e está voltando.
- Mas a entrega não era do outro lado da cidade?
- As três entregas, sim.
- - - - - -

Mais um dia normal na vida de Ângela. Ela acorda de mau-humor, se arrasta até a cozinha, faz um chocolate e torradas, leva tudo até a sala, liga a tv, senta à mesa, descobre que esqueceu a geléia, se teletransporta[1] até a cozinha, pega a geléia, se teletransporta de volta para a sala, termina de comer e ver um dos desenhos animados matinais, vai até o banheiro, toma banho, se veste, pega a bolsa esportiva com o uniforme da HERMES - courier ltda. e sai porta afora para mais um dia de trabalho.No caminho para a empresa, em pé num ônibus cheio, e sentindo uma inegável simpatia pelas sardinhas enlatadas, Ângela não consegue impedir que certas lembranças aflorem à sua mente.
[Eu quero sair daqui. Eu quero sumir, sumir, sumir!]
*PUF*- Ei! Cadê a garota?! Quem deixou ela sair da câmara de fótons?
- Pra onde ela foi?
- Parem de olhar e procurem! A gente não pode deixar esse acidente vazar! Já pensou se um repórter enxerido...[Onde eu estou...? Que enjôo, acho que eu vou vomitar...]
- Achei! Ela tá aqui!
...- Menina, como você saiu?
[Saí? .... Ah, é... eu estava na câmara...]
- Não sei... Não lembro direito...
[Como foi que eu saí?]
- Ela ainda tá em choque. Vamos levar ela logo pro médico...
O ônibus dá um solavanco e Ângela vê o ponto onde deveria saltar indo embora. Ela avalia suas chances, mas há muita gente, então ela se resigna a esperar o próximo ponto e se prepara para caminhar alguns quarteirões a mais até a empresa.
Durante a caminhada, Ângela prende seu cabelo, já seco, num rabo de cavalo e começa a entrar no seu papel de garota-descolada-que-não-dá-a-mínima-para-nada habitual. Ela entra como um foguete pela porta central, ignora o recepcionista pervertido e vai direto para o vestiário. Uma vez dentro, passa reto por garotas fúteis conversando sobre uma criatura que mais parece saído de uma revista em quadrinhos.
- Ai, mas ele é o máximo! Ele é forte, deve ter rios de dinheiro, e o que ele faz... ele até voa!
- Ah, mas ele é velho! Ele lutou na Segunda Guerra!
- Então ele deve ter uns... quantos anos?
- Não sei... Quando foi a Segunda Guerra mesmo?
Ângela se troca e sai do vestiário na maior velocidade possível. Chega perto do recepcionista e pega suas entregas para o dia, sem poder evitar antes ouvir uma piadinha suja, e sai.
Ela olha para os vales-transporte que o recepcionista deu. Seu salário ainda demoraria alguns dias para sair. Ela pensa duas vezes e resolve arriscar. Estuda seu trajeto até o destino da entrega, olha para os lados, entra no prédio comercial ao lado. Entra no elevador, aperta o botão do último andar, chega no último andar, encontra as escadas de incêndio e sobe. Chegando no terraço, Ângela anda lentamente até o parapeito e olha para baixo. Calcula a queda e se convence que provavelmente não sobreviveria. Então olha bem fixamente para o topo do prédio em frente, fecha os olhos... e desaparece.

[1] esta nota é, primeiro, uma homenagem ao Kadu. Em segundo lugar, ela serve para explicar que bem... sim, é isso mesmo, ela se teletransporta.

Para ver este conteúdo em seu habitat original, bem como saber mais sobre seu autor, veja o post de 19/04/2004 do Blanche Goes Wild

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